sexta-feira, 13 de julho de 2007

Impulso renegado

"A grande arte exige amor e ódio" (António Carlos Vilaça)Há inúmeros sentimentos humanos que podem ser listados. O amor sempre foi o preferido dos filósofos em sua maioria, das pessoas, dos poetas. A paixão ganhou maior atenção e adeptos durante o Romantismo. A tristeza sempre foi objecto dos artistas e, actualmente (e infelizmente), ela tem sido muito valorizada pelos chamados emos. Saudade, felicidade, alegria, afeição, pena, medo, esperança. O único sentimento realmente rejeitado é o ódio – e a raiva, por extensão.Por que o ódio? Ora, o ódio era o principal elemento no carácter de todos os vilões. Era ele que gerava a inveja, o desejo por vingança, a maldade fria e sedenta. Em minha visão, os vilões eram sempre muito mais humanos do que os mocinhos. Os mocinhos eram sonsos. Os bandidos se endoideciam seguindo seu lado passional; eles buscavam a vida, só que, muitas vezes, a vida estava depois da linha que a delimita com a morte.O ódio é palpável e muito melhor reconhecido do que o amor e todas as suas vagas definições. Quem nega o ódio, nega uma parte essencial da vida. Quem nunca sentiu vontade de gritar enlouquecidamente, alto o suficiente para o outro lado do mundo escutar, até rasgar as cordas vocais e sentir a garganta sangrar? Quem nunca quis esmurrar uma parede – e quem nunca chegou a fazer isso – até quebrar todos os ossos da mão e fazer doer tanto que o ódio até alivia? Sentir o coração disparar, a falta de palavras no momento crucial, a tremedeira no corpo, o mundo girando rápido, não são sintomas só de amor, mas de quem odeia também.A verdade é que o ódio enlouquece tanto quanto qualquer paixão. Ele move o mundo, tanto quanto o amor move, para direcções certas e erradas, assim como qualquer acção guiada por um sentimento. Amor e ódio são iguais, mesmo em extremos opostos. Fazem parte da condição humana e só causam mal se ignorados ou reprimidos. Matar o ódio é tão cruel quanto matar um primeiro beijo.
Um beijo
*Xana*

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