domingo, 28 de junho de 2009

BALADA DA SOLIDÃO

A vida ensinou-me a não olhar para trás.
Mas não por medo, ou por vontade, até porque o tempo que dizem que tudo apaga, só serve para nos roubar as horas e gravar na memória os melhores e os piores momentos.
E ficamos presos lá dentro, como peixes num aquário, enquanto a vida corre lá fora, e os outros respiram e se movem em liberdade, sem sequer repararem que estamos ali, fechados em nós mesmos, presos numa bola de vidro transparente que nos mostra o mundo onde não o conseguimos viver.
É, como se o presente não passasse de uma prisão dura e pesada, já basta o esforço de a aguentar, por isso, olhar para o passado, rouba-nos mais tempo e que no fim não nos serve para nada.
Quando me vens à memória, lembro-me sempre daquele abraço imenso, um abraço que me levou para fora deste mundo, enquanto assistia ao desenrolar da minha anterior existência. Lembro-me que senti muito medo.
Um medo enorme, quase infinito, como se desaparecesse nos teus braços e não voltasse.
Mas o teu olhar tranquilizou-me.
A tua voz era um bálsamo de doçura e magia e as tuas palavras, certas e serenas, faziam-me sentir que tudo estava certo e, por isso, quando passavas muito devagar as tuas mãos pela minha cara e ficavas a nadar nos meus olhos era como se me levasses para um lugar qualquer só nosso, cheio de verde e de azul, e se calhar era por isso que te dizia que confiava em ti, e, mesmo quando não vinhas, eu adormecia tranquila e serena, porque já te tinha cá dentro e pensava que podia estar assim para sempre.
Vivi alguns meses neste estado de plenitude a que uns chamam delírio absurdo e outros, amor total, esperando-te com paciência, desejando-te com contenção, esperando sempre o teu regresso, porque de repente tudo me parecia certo e perfeito.
Era certo e perfeito o teu olhar protector, o toque das tuas mãos, o teu peso em cima do meu corpo, a tua respiração regular quando dormias, as palavras que me dizias …
Hoje, depois da dúvida e da desilusão se terem instalado na minha consciência e me chamarem à razão todas as manhãs, fecho a porta a esse passado que já me alimentou e tento não pensar em mais nada para não pensar que me enganei, que me enganaste, que te enganaste ou que nos enganámos os dois.
A vida ensinou-me a aceitar em vez de querer, a esquecer em vez de julgar, a não guardar rancor e a dobrar a tristeza, sem nunca deixar de amar e proteger aqueles que já fizeram parte dela.
Um beijo
*Xana*

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Amor e Loucura

Contam que uma vez se reuniram num lugar na Terra todos os sentimentos e qualidades dos homens. Quando o Aborrecimento já tinha bocejado pela terceira vez, a Loucura, como sempre tão louca, lhe propôs:
- Vamos jogar às escondidas?
A Intriga levantou a sobrancelha intrigada e a Curiosidade, sem poder conter-se, perguntou:
- Às escondidas?! Como é isso?!
É um jogo, explicou a Loucura. No qual eu tapo a cara e começo a contar desde um até um milhão, enquanto vocês se escondem e, quando eu terminar de contar, o primeiro de vocês que eu encontre ocupará o meu lugar para continuar o jogo.
O Entusiasmo bailou entusiasmado, secundado pela Euforia. A Alegria deu tantos saltos que conseguiu convencer a Dúvida e, inclusivamente, a Apatia, a tal que nunca se interessava por nada. Mas nem todos quiseram participar. A Verdade preferiu não esconder-se, para quê se afinal sempre a encontravam e a Soberba opinou que era o jogo muito tonto (no fundo o que a incomodava era que a ideia não tinha sido dela), e a Cobardia preferiu arriscar.
- Um, dois, três... – começou a contar a Loucura.
A primeira a esconder-se foi a Preguiça, como sempre tão preguiçosa escondeu-se atrás da primeira pedra do caminho. A Fé subiu ao céu e a Inveja escondeu-se atrás da sombra do Triunfo, que com o seu próprio esforço conseguiu subir à copa da árvore mais alta. A Generosidade quase não conseguia esconder-se, cada sítio que encontrava parecia-lhe maravilhoso para alguém dos seus amigos. Que tal um largo cristalino? Ideal para a Beleza... que tal uma folha de uma árvore? Perfeito para a Timidez... que tal o voo de uma mariposa? O melhor para a Voluptuosidade... que tal uma brisa de Vento? Magnífico para a liberdade... assim, terminou por esconder-se num raio de sol. O Egoísmo pelo contrário, encontrou um sítio muito bom desde o princípio: arado, cómodo, mas só para ele. A Mentira escondeu-se no fundo dos oceanos (mentira, na realidade escondeu-se por trás do arco-íris), e a Paixão e o Desejo no centro dos vulcões... o esquecimento... esqueceu onde se escondeu.
Um milhão contou a Loucura e começou a procurar... a primeira que encontrou foi a Preguiça, só a três passos, por trás de uma pedra. Depois escutou a Fé, discutindo com Deus sobre Teologia, e a paixão e o Desejo sentiu-os vibrar nos vulcões. Num descuido encontrou a Inveja e claro, pode deduzir onde estava o Triunfo. O Egoísmo não teve que procurá-lo, ele saiu disparado do seu esconderijo, que tinha sido um ninho de vespas... De tanto caminhar sentiu sede, e ao aproximar-se do lago descobriu a Beleza, e com a Dúvida foi mais fácil ainda, pois encontrou-a sentada numa cerca sem decidir ainda onde esconder-se. Assim foi encontrando todos. O Talento, entre a erva fresca. A Angústia, numa cova obscura. A Mentira, por trás do arco-íris (mentira, estava no fundo do mar). Até o Esquecimento... que se esqueceu que estava a jogar às escondidas! Mas, só o Amor não aparecia em nenhum sítio. A Loucura procurou por trás de cada árvore, em cada cantinho do planeta, em cima das montanhas e, quando estava a dar-se por vencida, avistou um roseiral e pensou: o Amor, como sempre tão lindo, de certeza que se escondeu entre as rosas...
Pegou numa forquilha e começou a mexer nas ramas e logo se ouviu um grito. Os espinhos tinham ferido os olhos do Amor. A Loucura não sabia o que fazer para desculpar-se... chorou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser sua acompanhante. Desde então, desde aquela primeira vez se jogou na Terra às escondidas, o Amor é cego e a Loucura sempre o acompanha.
Um beijo
*Xana*

terça-feira, 9 de junho de 2009

Dava cabo do mundo só para te poder encontrar.

Não sou fada, nem coisa nenhuma parecida.
As minhas pistas acabam numa nota sem som, como se a estrada de luz que no outro dia me fazia percorrer de rajada todos os meus sonhos, também ela, desistiu de existir.
O pior é desistir da vida e do sonho ao mesmo tempo.
Suponho que os cinco segundos que o sol demora a desaparecer no ponto final do crepúsculo sejam suficientes para me fazerem desistir da vida e dos sonhos também.
Esta seria a grande dádiva que não me é permitida – fazer-te desaparecer dos meus sonhos, do meu peito, do meu corpo, da minha cabeça.
A morte é o único sítio onde já não se pode sonhar.
Mas tu não morreste, só uma parte de ti, que era precisamente aquela onde eu vivia.
Ora, como ninguém sabe de ti, nem de nós, não há mais caminhos a percorrer, pois todas as estradas desaguam num ponto de interrogação, de reticência, de exclamação, sei lá.
Claro que me lembro de ti inteiro.
Jurava que te tinha tocado na pele e na alma, mas se calhar não, se calhar – e cada vez me convenço mais –, se calhar toquei na tua personagem, naquela que tu criaste, e que tu provavelmente nem exististe para mim.
Mas a verdade é que se pudesse reconstituía o teu retrato.
Olhos, mãos, boca, sorriso.
Passei dias à tua procura.
Não posso dizer que tenha sido à tua espera, porque não se espera por ti, procura-se por ti – o que é um paradoxo para matar o tempo, mais dinâmico, mais corpóreo, mais aceso também.
E, de tanto procurar na ausência, aprendi que esta é uma história extenuante.
Uma história em que passamos todos a encontrar partes dispersas de nós, o que já não é mau. Cheguei a um ponto de desdobramento em que não estou contigo mas conto contigo, e talvez tenha agora entendido que estar é pouca coisa.
Ser é infinitamente mais.
Eu estou em ti.
E de tanto procurar, de tanto ensaiar o que te diria quando por fim te encontrasse, passei a viver de uma outra forma.
Contigo cá dentro.
Minto, com a tua personagem cá dentro.
E o que é a mentira senão a verdade de pernas para o ar?
Garanto-te, agora garanto eu, que, nesta clivagem poderosa, vive-se com a alma, vive-se com asas, de maneira a tocar a tua ilusão de amor-perfeito sempre que me apetecer.
Ainda não percebi porque será que tudo aquilo em que eu toco desaparece de repente.
Mas...
Se eu tivesse de dizer aqui e agora o quanto significas para mim, ficaríamos nisto uma eternidade.
Dá-me a mão e...
Deixa-te levar por mim,
Deixa-me dar-te o mundo assim,
Sei que pode resultar,
Deixa-me mostrar-te quem sou,
Deixa-te ir com o que te dou,
Só tu o podes alcançar...
Um beijo
*Xana*

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Uma história de amor...

Era uma vez uma ilha, onde morava o amor e outros sentimentos.
Um dia avisaram os moradores dessa ilha que ela ia ser inundada.
Apavorado, o AMOR, cuidou para que todos os sentimentos se salvassem.
Ele então falou:
"- Fujam todos, a ilha vai ser inundada."
Todos correram e pegaram nos seus barquinhos, para saírem da ilha o quanto antes.
Só o AMOR não se apressou, pois queria ficar um pouco mais com a sua ilha.
Quando este já estava quase a afogar-se, correu para pedir ajuda.
Então passou a Riqueza e ele pediu:
"- RIQUEZA ajuda-me, leva-me contigo..."
" - Não posso, o meu barco está cheio de ouro e prata e tu não vais caber."
Passou então a Vaidade e ele pediu:
"- Oh! VAIDADE leva-me contigo..."
"- Não posso vais sujar o meu barco."
Logo atrás vinha a Tristeza.
"- TRISTEZA, posso ir contigo?"
"- Ah! AMOR, estou tão triste que prefiro ir sozinha."
Passou a ALEGRIA, mas estava tão alegre que nem ouviu o AMOR chamar por ela.
Já desesperado, achando que ia ficar só, o AMOR começou a chorar.
Então passou um barquinho onde estava um velhinho e ele então falou:
"- Sobe AMOR, que te levo."
O AMOR ficou radiante de felicidade que até esqueceu de perguntar o nome do velhinho. Chegando onde estavam os sentimentos, ele perguntou à Sabedoria:
"- SABEDORIA, quem era o velhinho que me trouxe aqui?"
Ela então respondeu:
"- O TEMPO! "
"- O Tempo?Mas porque é que só o tempo me ajudou?"
"- Porque só o Tempo é capaz de entender um grande AMOR." - respondeu ela.
Agora já entendem o porquê da expressão "Dá tempo ao tempo?".
Realmente, cada vez mais acredito que o tempo cura tudo...
Um beijo
*Xana*