sexta-feira, 12 de junho de 2009

Amor e Loucura

Contam que uma vez se reuniram num lugar na Terra todos os sentimentos e qualidades dos homens. Quando o Aborrecimento já tinha bocejado pela terceira vez, a Loucura, como sempre tão louca, lhe propôs:
- Vamos jogar às escondidas?
A Intriga levantou a sobrancelha intrigada e a Curiosidade, sem poder conter-se, perguntou:
- Às escondidas?! Como é isso?!
É um jogo, explicou a Loucura. No qual eu tapo a cara e começo a contar desde um até um milhão, enquanto vocês se escondem e, quando eu terminar de contar, o primeiro de vocês que eu encontre ocupará o meu lugar para continuar o jogo.
O Entusiasmo bailou entusiasmado, secundado pela Euforia. A Alegria deu tantos saltos que conseguiu convencer a Dúvida e, inclusivamente, a Apatia, a tal que nunca se interessava por nada. Mas nem todos quiseram participar. A Verdade preferiu não esconder-se, para quê se afinal sempre a encontravam e a Soberba opinou que era o jogo muito tonto (no fundo o que a incomodava era que a ideia não tinha sido dela), e a Cobardia preferiu arriscar.
- Um, dois, três... – começou a contar a Loucura.
A primeira a esconder-se foi a Preguiça, como sempre tão preguiçosa escondeu-se atrás da primeira pedra do caminho. A Fé subiu ao céu e a Inveja escondeu-se atrás da sombra do Triunfo, que com o seu próprio esforço conseguiu subir à copa da árvore mais alta. A Generosidade quase não conseguia esconder-se, cada sítio que encontrava parecia-lhe maravilhoso para alguém dos seus amigos. Que tal um largo cristalino? Ideal para a Beleza... que tal uma folha de uma árvore? Perfeito para a Timidez... que tal o voo de uma mariposa? O melhor para a Voluptuosidade... que tal uma brisa de Vento? Magnífico para a liberdade... assim, terminou por esconder-se num raio de sol. O Egoísmo pelo contrário, encontrou um sítio muito bom desde o princípio: arado, cómodo, mas só para ele. A Mentira escondeu-se no fundo dos oceanos (mentira, na realidade escondeu-se por trás do arco-íris), e a Paixão e o Desejo no centro dos vulcões... o esquecimento... esqueceu onde se escondeu.
Um milhão contou a Loucura e começou a procurar... a primeira que encontrou foi a Preguiça, só a três passos, por trás de uma pedra. Depois escutou a Fé, discutindo com Deus sobre Teologia, e a paixão e o Desejo sentiu-os vibrar nos vulcões. Num descuido encontrou a Inveja e claro, pode deduzir onde estava o Triunfo. O Egoísmo não teve que procurá-lo, ele saiu disparado do seu esconderijo, que tinha sido um ninho de vespas... De tanto caminhar sentiu sede, e ao aproximar-se do lago descobriu a Beleza, e com a Dúvida foi mais fácil ainda, pois encontrou-a sentada numa cerca sem decidir ainda onde esconder-se. Assim foi encontrando todos. O Talento, entre a erva fresca. A Angústia, numa cova obscura. A Mentira, por trás do arco-íris (mentira, estava no fundo do mar). Até o Esquecimento... que se esqueceu que estava a jogar às escondidas! Mas, só o Amor não aparecia em nenhum sítio. A Loucura procurou por trás de cada árvore, em cada cantinho do planeta, em cima das montanhas e, quando estava a dar-se por vencida, avistou um roseiral e pensou: o Amor, como sempre tão lindo, de certeza que se escondeu entre as rosas...
Pegou numa forquilha e começou a mexer nas ramas e logo se ouviu um grito. Os espinhos tinham ferido os olhos do Amor. A Loucura não sabia o que fazer para desculpar-se... chorou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser sua acompanhante. Desde então, desde aquela primeira vez se jogou na Terra às escondidas, o Amor é cego e a Loucura sempre o acompanha.
Um beijo
*Xana*

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